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“Afastem-se de toda forma de mal” 1 Tessalonicenses 5:22

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“Afastem-se de toda forma de mal” 1 Tessalonicenses 5:22

Em uma agradável tarde ensolarada de inverno, ao ar livre, numa praça central da cidade de Marechal Cândido Rondon, eis que o entrevistado desta edição atende a nossa reportagem, para um bate papo informal… o vento batendo no rosto, os passarinhos cantando, pessoas caminhando ao nosso redor, uma conversa livre sobre os milagres de Deus e algo que muitos de nós não nos damos conta e nem o devido valor: a liberdade!

Palavra essa que, segundo o dicionário, significa: “o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa”.

Liberdade não foi uma realidade do jovem (hoje com 36 anos), com iniciais RCS (que preferiu não ter seu nome identificado), durante mais de dois longos anos…

Desespero, angústia, dívidas, falência, medo, tristeza: algumas palavras que definem uma decisão errada de um cristão rondonense, de família tradicional, muito envolvido com as atividades de uma igreja evangélica desde a infância, que nunca antes havia se envolvido em atos ilícitos. Uma escolha que custou bastante caro: ficar atrás das grades! Isolado do mundo e vivendo em condições precárias.

RCS conversou com a reportagem da Revista Paz e abriu a sua vida, demonstrando muito arrependimento, aprendizado e amor pela família e amigos verdadeiros… destacando que, acima de tudo, Deus está sempre presente em nossas vidas, não importando as circunstâncias.

Confira esse testemunho e seja edificado:

 

O coração apertado…

27 de maio de 2014. Uma data que nunca será esquecida por RCS. Tudo ia mal em sua vida financeira: dívidas, falência da sua empresa, busca e apreensão do carro, três meses de aluguel da casa atrasados… estava devendo para muita gente!

Na época tinha 32 anos, casado e pai de três lindas meninas: gêmeas de 4 anos e a caçula de 2. E surgiu uma oportunidade para mudar esse quadro. “Uma pessoa que eu já conhecia há algum tempo se aproximou e vendo a minha situação, comentou que tinha a possibilidade de me oferecer um ‘trabalho’ para ganhar ‘dinheiro fácil’. No desespero, aceitei… totalmente cego! A princípio, não sabia que se tratava de algo ilícito. Falaram que eram eletrônicos contrabandeados. Não iria levar a mercadoria em si, mas ser o ‘batedor’, que vai à frente com um carro e repassa as informações, como bloqueios policiais na estrada, por exemplo. Chegou o dia combinado: peguei o carro que estava preparado com rádio amador e apareceu uma mulher que tinha o contato da pessoa que estaria recebendo a mercadoria em Curitiba. Estava relativamente tranquilo, mas com o coração apertado… iniciamos a viagem, mas algo já me dizia que não ia dar certo: naquela noite, dormi com as minhas meninas e quando acordei pela manhã e fui vê-las, lembro que tive a nítida impressão que levaria um bom tempo para presenciar aquela cena novamente”, explica.

RCS conta que saíram e quando estavam passando por Toledo, conversando um pouco com a moça, ela comentou: “Você nunca fez isso, né? Dá pra ver que não é do negócio”. “Respondi que realmente era a primeira vez… aí ela questionou: ‘e é a primeira vez que você tá levando ‘verde’’? Não entendi logo e ela continuou: ‘sim, verde… maconha’! Foi quando fiquei sabendo e veio a realidade que se me pegassem, seria muito sério. Chegando em Cascavel, a moça fez uma ligação e informou que já estávamos na ‘cidade da cobra’. Seguimos viagem e chegando no posto da Polícia Rodoviária Federal, vários policiais armados mandaram encostar o carro. Pediram os meus documentos e a moça que estava comigo disse: ‘e minha documentação, você também precisa’? O policial respondeu: ‘Não, pois a gente já sabe quem você é’”, relata.

Então, o delegado da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), questionou a moça: “Até quando você pensou que conseguiria fugir da gente”? “O telefone dela estava grampeado e acredito que quando ouviram a ligação mencionando a ‘cidade da cobra’, já se prepararam. Logo, tive que esticar meus braços e ser algemado também. Ali eu vi que ia ficar por um bom tempo. Não podia ir pra lugar algum. Tive que reconhecer meu erro. O inimigo pode criar situações para te pegar e muitas vezes, ele consegue. Mas, a gente como cristão, conhecedor da Palavra, tem que resistir… como a Bíblia diz: se resistirmos, ele fugirá. Mas, somos pecadores e eu errei”, explica.

 

E se desistisse?

RCS conta que quando soube que o que estava sendo contrabandeado se tratava de maconha, pensou em desistir: parar o carro e sair correndo! “Mas, acredito que Deus já estava me cuidando, pois tenho certeza que se eu desistisse, eles seguiriam a Cascavel, seriam pegos e pensariam que eu tivesse dado alguma informação. E na organização criminosa, o tal do ‘cagueta’, o que ‘fofoca’ as coisas, não tem chance… é executado! É morte na certa! Jamais teria paz para sentar na praça e dar essa entrevista, caso ainda estivesse vivo”, comenta.

Quando foi preso, RCS questionou a Deus muitas vezes, por estar naquela situação. E Ele usou sua mãe para dar a resposta: “Lembro da primeira vez em que meus pais e minha pastora foram me visitar e minha mãe disse: ‘você foi pego na primeira porque é escolhido. Não é como qualquer outro’. Quem está no crime, faz várias vezes… mas o povo escolhido deve fazer as coisas certas, caso contrário, não terá sucesso”, relata.

 

Triste realidade

Nosso entrevistado ficou preso em Cascavel, em um local com capacidade para 100 presos e havia mais de 500. “Não gostaria de lembrar, mas não sai da minha cabeça a primeira noite lá: era frio e não podia ficar com casaco; uma sala de 1x3m em seis pessoas. Dormi e de madrugada, acordei com muita dor no ouvido, por causa do piso gelado. Pensei: ‘o que colocar em baixo da minha cabeça’? Olhei pro canto e tinham umas garrafas pet de 2 litros com urina… peguei, fechei bem e usei como travesseiro”, conta.

Depois de cerca de quatro meses, chegou o dia da audiência, quando RCS pegou uma pena 7 anos e 9 meses em regime fechado. “Ali entendi que ficaria mesmo um bom tempo preso. Iria pra Penitenciária Estadual de Cascavel, mas naquela semana deu rebelião, com várias mortes. Fiquei mais alguns meses na Subdivisão Policial de Cascavel e fui pra Casa de Custódia de Piraquara, região metropolitana de Curitiba. Depois de uns 40 dias, fui transferido para a Penitenciária Central do Estado, pois descobriram um túnel que estava sendo feito por alguns colegas de cela”, relata.

A sua rotina não era das melhores: às 5 da manha, ganhava dois pães pequenos e uma caneca do que chama de “cevada azeda”; ao meio-dia e às 17h, marmitas, nem sempre apetitosas. “Hoje, quando sento para me alimentar, sinto uma alegria tão grande em ter alimentos gostosos e saudáveis”, explica.

 

Uma luz no fim do túnel…

Chegou um dia em que RCS caiu na real e teve certeza que ficaria preso por muito tempo. Então, começou a conversar com os detentos no pátio onde tomavam sol, quando Deus tocou em seu coração e lhe deu coragem para começar um ministério e fazer um culto diário em sua galeria. “Com muita cautela, após autorização dos ‘irmãos’ do PCC (Primeiro Comando da Capital), que é quem comanda as penitenciárias hoje, iniciamos nossos cultos. Tive a ajuda de um colega que se converteu: Deus usou a minha vida para levar a Sua Palavra! Ouvíamos uma rádio gospel e ele começou a ter curiosidade e me pedia… então, minha pastora mandava estudos bíblicos e eu repassava a ele, até que entregou a sua vida a Jesus (inclusive, hoje ele está em liberdade e frequenta uma igreja evangélica). O primeiro culto que realizamos durou uns 15 minutos… fazíamos todos os dias, às 7h da manhã, iniciando os cumprimentos com a paz do Senhor. Em 30 dias, já eram de 2 a 3h de louvor e adoração a Deus! Quando as galerias de baixo e dos lados começaram a ouvir o nossos louvores e testemunhos, mandavam recados que chamam de ‘pipa’, dizendo que queriam participar dos cultos. Começamos então a fazer virado para a parede, para que os demais também ouvissem. E realmente foi uma bênção! Deus usa quem Ele quer, da forma que quer… esse período foi de muito crescimento espiritual, em que Deus quebrantou o meu coração, fez uma mudança em mim e ainda pude levar a Palavra a essas pessoas. Me emociono só de pensar que pessoas conheceram a Cristo ali, dentro da cadeia, através da minha vida. Ate me chamavam de ‘pastor Marechal’”, ressalta.

Há vários testemunhos de detentos que tiveram suas vidas tocadas pelo Espírito Santo de Deus durante os momentos de oração e adoração ministrados por RCS. “Muitos falavam e até enviavam bilhetes agradecendo a oportunidade que estavam tendo e isso foi muito gratificante.

 

O reencontro

De Curitiba, RCS foi transferido a Foz do Iguaçu e devido a bom comportamento, leitura de livros, artesanato, não ter falta grave, ser réu primário, dentre outros quesitos, teve a redução da sua pena, sendo liberto quando concluiu 2/5 da mesma. No dia 02 de agosto de 2016 (mais de dois anos e dois meses depois), passou ao regime semi aberto. “Estava no pátio com os ‘irmãos’ e o agente penitenciário chamou meu nome. Pedi licença e fui me apresentar. Ele disse: ‘cantou teu alvará, pode sair’! Assinei todos os documentos e abriram aquela porta gigantesca. Estava livre”, relata.

Nesse tempo todo, ficou sem ver as filhas, por opção, por não querer que elas fossem a aquele local. “O reencontro? Ah, é difícil de falar. Fico muito emocionado. Não via hora de poder abraçar as minhas filhas. Foi algo que depois do nascimento, veio a flora aquela emoção novamente. Foi algo inexplicável… a liberdade não tem preço! Hoje, minha vida está muito mais colorida. Vivo intensamente, honrando minha família, estando junto. Trabalho muito, graças a Deus e estou conseguindo pagar os credores de antigamente, aos poucos. Hoje vivo maravilhosamente bem. Vivo livre porque sei que Deus me perdoou… é uma liberdade não somente por estar fora da prisão, mas por saber do amor incondicional que Deus tem por mim. A partir do momento que você se entrega verdadeiramente, se humilha aos pés do Senhor pedindo perdão, Ele atende. Realmente, hoje tenho só a agradecer”, enfatiza, muito emocionado.

 

O crime não compensa!

Definitivamente, essa frase é dita com todas as letras por RCS! “O crime não compensa! Nós, como cristãos, sabemos disso. E o próprio criminoso sabe disso: quer mudar de vida. Mas, muitas vezes, não consegue… o crime leva a dois lugares: cadeia ou morte. Então, nunca mais vou me envolver com algo ilícito e fico feliz em ter pessoas conhecidas que vêm até a mim e falam que estavam fazendo coisas erradas, como a que eu fiz, e pela minha experiência, pararam, ao verem todo o sofrimento da minha esposa, das minhas filhas, dos meus pais e de toda a minha família. Um conselho eu posso dar: o crime, realmente, não compensa”, finaliza.

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